Repare Bem

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.
José Saramago

Repare Bem é um grito angustiado de liberdade contra a opressão militar. Um libelo de resistência ao arbítrio imposto pelo militarismo. Através do testemunho comovente de uma heroína que carrega no corpo e na alma as cicatrizes horrendas da repressão, percebemos que o terrorismo foi uma política de Estado. As torturas cometidas contra os opositores ao regime autoritário não eram ações individuais e isoladas de violência indiscriminada, mas procedimentos autorizados pelo alto oficialato para garantir a sustentação do golpe civil-militar.

O filme também é um tributo à memória política do militante Bacuri que sacrificou a sua vida em nome da democracia. Brutalmente torturado e assassinado, Bacuri foi vítima da barbárie institucionalizada que seviciou o seu corpo durante quatro meses. Detido pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, famoso por sua truculência, ele foi supliciado sistematicamente por agentes públicos sádicos que aproveitaram a oportunidade para manifestarem a sua natureza cruel e bestial.

Dirigido pela atriz e cineasta lusitana Maria Medeiros, Repare Bem resgata o engajamento político de Denise Crispim que foi presa e torturada pelos militares em 1970. Filha de pais comunistas perseguidos pela ditadura varguista, Denise nasceu na clandestinidade e cresceu em um clima de ebulição política e ideológica. Com a escalada de horror da ditadura militar, ela assumiu o papel de combatente política na trincheira de resistência ao totalitarismo fardado. Acabou apaixonada pelo guerrilheiro urbano Eduardo Leite “Bacuri” que morreu como mártir da causa revolucionária. Grávida de seis meses, ela foi vítima de práticas cruéis de repressão – colocada na jaula de uma besta fera. Descobriu que o seu irmão Joelson de apenas vinte dois anos foi assassinado nos porões sangrentos do regime.

Exilada no Chile, Denise reencontrou a sua mãe que também foi presa e torturada pelos militares. Com a pequena Eduarda no colo, a razão da sua luta pela sobrevivência, ela procura recobrar o ânimo em meio ao sofrimento da morte bárbara de Bacuri. Após a derrubada do regime democrático socialista de Salvador Allende, ela foge para Itália temendo perseguições e represálias dos militares. Apesar das chagas decorrentes dos anos de chumbo do regime militar, Denise casa novamente e recomeça a sua vida em uma terra distante da sua pátria amada.

Como um convite ao passado tenebroso que maculou a história do país, Repare Bem discute questões como a promoção da verdade sobre os cidadãos mortos e desaparecidos pelo regime militar, a violação aos direitos humanos cometidos pelos agentes repressivos, a criminalização dos rebeldes políticos que lutaram contra o estado de exceção, a revisão da anistia que garante impunidade aos torturadores e iguala algozes e vítimas e a reparação das famílias brutalizadas pelo autoritarismo. Em contraposição à ideologia da reconciliação que procura impedir o resgate da memória, o filme de Maria Medeiros coloca na pauta do dia os abusos do esquecimento e a necessidade de não apagamento dos fatos hediondos que lançaram o país nas trevas da tirania.

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