A Janela

A Janela

Olha estas velhas árvores, mais belas 
Do que as árvores moças, mais amigas, 
Tanto mais belas quanto mais antigas, 
Vencedoras da idade e das procelas… 

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas 
Vivem, livres da fome e de fadigas: 
E em seus galhos abrigam-se as cantigas 
E os amores das aves tagarelas. 

Não choremos, amigo, a mocidade! 
Envelheçamos rindo. Envelheçamos 
Como as árvores fortes envelhecem, 

Na glória de alegria e da bondade, 
Agasalhando os pássaros nos ramos, 
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac

Dirigido pelo argentino Carlos Sorín, o filme A Janela (2009) aborda a solidão melancólica da velhice. Sofrendo com a inevitável degradação física, o famoso escritor Antônio (Antônio Larreta) experimenta a angústia de viver isolado da convivência social por causa da sua saúde debilitada. Através da janela do seu quarto, ele contempla a deslumbrante paisagem da sua propriedade sem poder desfrutá-la. A sua triste condição revela o contraste entre a fragilidade de um corpo velho e a vivacidade de uma alma jovem. Apesar do vigor do seu espírito, o seu corpo está em processo de definhamento. A sua mente sadia está presa ao corpo doente.

De fato, o mote do filme são as perdas irremediáveis da velhice. Ninguém em idade avançada escapa das perdas irreversíveis decorrentes das transformações fisiológicas, psicológicas e sociológicas. Todo idoso é vítima do declínio gradual das funções orgânicas, das capacidades sensoriais e das habilidades cognitivas. O seu corpo sofre perdas no sistema circulatório e renal, no sistema nervoso central, na força muscular, na estrutura cartilaginosa e óssea e na sexualidade. Assim, podemos dizer que cada perda vivenciada no processo de envelhecimento pode ser concebida como uma morte simbólica. Um sepultamento metafórico das atividades que exigem energia física e/ou disposição mental.

Além de tematizar as agruras da velhice, o diretor argentino enfoca a relação conflituosa entre pai e filho. Diante da sombra da morte, Antônio procura a reconciliação com o filho – um pianista eminente. A sua longa ausência é um sinal do desentendimento entre os dois. Tendo em vista a visita do filho, ele recobra o ânimo e contrata um afinador de pianos para preparar o instrumento musical abandonado. O esperado reencontro pode ser uma oportunidade para superar o abismo afetivo. Todavia, a pergunta que fica é a seguinte: será que o retorno do filho pode diminuir o hiato emocional entre os dois?

Preferindo planos fixos e ritmo lento, Carlos Sorín procura colocar o espectador na situação dolorosa da protagonista. Através de uma história narrada em um tempo curto e um espaço único, ele demonstra que os dias na idade avançada podem ser monótonos e enfadonhos. A mesmice da velhice pode gerar um vazio perturbador. Ademais, a economia narrativa – diálogos lacônicos – é um indício do desgaste intelectual de Antônio. Desiludido com a existência desventurada, o seu comportamento monossilábico advém do fastio da sua mente. Por que desperdiçar o pouco tempo que resta com palavrórios inúteis?

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