Sangue Negro

Inspirado no livro Oil! escrito em 1927 por Upton Sinclair (1878-1968), Sangue Negro (2008) dirigido por Paul Thomas Anderson retrata o predatismo da exploração petrolífera. O seu tema principal é a agressão brutal ao solo provocada pela sanha destrutiva dos desbravadores de petróleo. Com base na ganância travestida de otimismo tecnológico propagado pela ciência, a prospecção petrolífera cometeu crimes horrendos contra a natureza a ponto de torná-la uma vítima irremediável da expropriação capitalista.

Em nome da dominação técnica da natureza, o minerador Daniel (Daniel Day-Lewis) construiu um império petrolífero. Aproveitando o discurso capitalista de avanço industrial e progresso civilizatório para justificar a sua selvagem empreitada petrolífera, Daniel coisifica tudo e todos para prosperar a sua companhia de petróleo. Sempre encoberto com o sangue negro extraído violentamente de uma terra árida e hostil, ele desnaturaliza a natureza e desumaniza os seres humanos para amealhar a sua fortuna. Contudo, assim como o magnata da imprensa no filme Cidadão Kane (1942) não escapa da ruína moral, a cobiça por poder também culmina na queda de Daniel.

Além de Daniel que simboliza o empresário capitalista que ascende economicamente através da espoliação dos recursos naturais, Sangue Negro também retrata o radicalismo religioso a serviço da criação e concentração de riquezas. Interpretado por Paul Dano, o pastor Eli Sunday expressa o arquétipo do mercador do evangelho que explora comercialmente a devoção da comunidade. Embora condene os lucros desenfreados de Daniel, o fundamentalista religioso também exemplifica a ambição capitalista que consiste em produzir acumulação mediante a exploração. Ao vender milagres para os seus fiéis, o líder fanático não difere do seu opositor, pois também pratica a apropriação privada dos bens produzidos coletivamente.

Dessa maneira, Sangue Negro pode ser visto como um filme que denuncia o saque sistemático do processo industrialista contra natureza e contra a humanidade. Tanto o minerador como o pastor encarnam a base do sistema capitalista: a pilhagem da natureza validada pelo discurso da ciência e a pilhagem da humanidade validada pelo discurso da religião.

 

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